Quando eu fiz 18 anos de idade, lembro que eu não podia nem acreditar
que estava indo morar em São Paulo, a grande metrópoles do Brasil. Morei minha
vida toda em Piracicaba, uma cidade que, pra mim, era um ovo e que não tinha
nada pra me oferecer. Me sentia presa dentro de mim. Milhões de vontades para
realizar, coisas pra ver, vivenciar, e em Piracicaba eu não tinha isso. Nada
disso.
Em São Paulo eu me sentia completa. Quase. Sempre faltava aquela uma
coisinha... Eu sempre queria mais e não encontrava. Sou ansiosa demais acho.
Quero tudo, a toda hora, a todo momento, sempre. E quero tudo do bom e do
melhor.
Não querendo ir pro lado chato que todo mundo vai quando reclama do
Brasil, mas esse país não funciona como deveria funcionar... As coisas não são
boas, elas simplesmente são o máximo que conseguem ser (encaixe aqui o motivo
que quiser... Eu tenho até preguiça de começar essas discussões).
Queria mais. Queria mais intenso. Queria com valores diferentes.
Mentalidades diferentes. Comportamentos diferentes. Pessoas diferentes. Olhar
ao meu redor e não acreditar que nunca tinha visto aquilo acontecer ainda.
E foi por isso que, com 26 anos de idade, larguei tudo pra trás e fui,
com a cara e a coragem, estudar produção para TV e cinema em Nova York.
Foram os melhores 2 anos da minha vida. Estudei. Trabalhei. Fiz
amizades. Conquistei amores. Mas mais do que isso: eu vivi. Eu vivi o sonho que
eu queria. Ali, no meio da Times Square, com milhões de pessoas congelando de
frio em fevereiro ou morrendo de calor em agosto, saindo dos espetáculos que
lotavam todos teatros da Broadway, ali, naquele meio do inferninho, eu me
sentia tranquila. Eu respirava de olho fechado e sorria. Coisa babaca de filme
mesmo. Nem sei quantas vezes eu fui sozinha a Times Square, só pra ficar comigo
mesma, rodeada de estranhos e de línguas que nem me arriscava adivinhar quais
eram. Eu chegava na estação de metrô ‘Times Square – 42nd Street’, subia as
escadas rolantes, e as luzes de todas as atrações já aqueciam meu coração
(aliás, a Times Square de manhã devia de ser fechada. Não tem graça nenhuma
estar ali se não totalmente tomada pelos milhares de watts das marquises de
teatros, outdoors e letreiros de lojas. Ela perde todo o sentido).
Parava na Starbucks, pedia meu Iced Soy Decaf Latte Light Ice e sentava
ou na escadaria da TKTS ou em uma mesinha qualquer.
Eu assistia, de camarote, o casal se matando pra tirar uma foto, eles
mesmos, dos dois com a torre da Times Square no fundo. Daí a namorada reclamava
que não tinha saído o prédio todo, o namorado, puto, pela 37a vez
tentava com que saísse os 2 e o maldito prédio inteiro. E não conseguia. E lá
ia ela tomar a câmera da mão dele de novo para, como não poderia deixar de ser,
falhar na tentativa também.
Tinha sempre o grupo de 8 ou mais japoneses passeando, tirando foto de
qualquer coisa, desde o logo do McDonalds (que, para mim, não faz sentido
algum, porque aquele M é igual em qualquer país, até o deles com as letrinhas
estranhas), a fotos de pessoas que eles não tinham ideia de quem eram, mas
estavam no telão da loja da American Eagle, até do grupo todo junto com Naked
Cowboy, ‘personagem’ que chegou a status de ponto turístico da cidade.
Daí eu avistava aquele casal de velhinhos, que era tocante demais a simplicidade deles,
agarradinhos, se aquecendo, saindo de algum musical, sem se olharem, sem
conversarem, de mãos dadas e carregando sorrisos nos rostos. Não precisavam
trocar palavras para mostrar que, mesmo estando juntos numa jornada de
provavelmente 50 anos, estavam juntos porque queriam e pela completude que tinham.
Eram sempre esses casais de velhinhos que me faziam cair na real e perceber que toda a minha inquietação, minha falação, minha vontade de fazer tudo o tempo todo, tudo rápido demais, querer viver antes que não dê mais tempo... nada disso de nada vale...
São essas poucas coisas, esses toques, esses programas
‘fora de casa’, esse ‘ver gente’, essas vivências e convivências, essa
observação do mundo ao redor... São essas poucas coisas que importam. Palavras só enchem
linguiça, a maioria das vezes.
O silêncio é subestimado.
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