Outro dia estava conversando com um cara aqui em Nova York, americano, que estava tentando me explicar como é a relação de amizade entre homem e mulher. Ele perguntou se eu acreditava que existia amizade entre homem e mulher e eu disse que sim, claro. Perguntou se eu tinha amigos de verdade homens e eu disse que sim, lógico, alguns. E ele virou e me disse:
Ele: "E você realmente acha que eles são só seus amigos? Porque vou te contar uma coisa que pode acabar com a visão que você tem dessas relações, mas, esses seus amigos, eu tenho certeza que você é muito legal e divertida e tudo mais, mas eles só são seus amigos até hoje porque eles estão, na verdade, esperando na fila."
Eu: "Como assim esperando na fila? Que fila?"
Ele: "Na fila pra ter alguma coisa com você. Eles estão esperando pelo momento em que você vai estar ou fragilizada com algum outro homem ou então bêbada ou algo do tipo, quando você vai virar pra eles e perceber que eles são o homem da sua vida, que ele sempre esteve ali pra você e tals, essas baboseiras de filme e que mulher costuma pensar mesmo."
Eu: "Shut up!"
Ele: "Eu tô falando super sério. Eles estão esperando o momento em que você vai virar pra eles e dizer 'Eu acho que a gente devia tentar algo mais'."
Na hora eu fiquei putíssima! Como assim ele ousa dizer que minhas amizades não são completamente verdadeiras? Como assim meus amigos agem de uma maneira, mas têm outras intensões em mentes? Ele acha que conhece meus amigos? E eu não sou legal o suficiente pra manter uma amizade só baseada nisso? Que absurdo!
Mas daí eu parei pra pensar. E vi que eu estava sendo um pouco cínica. Não estou dizendo que os meus amigos são iguais a mim, muito pelo contrário, eu sei que meus amigos são meus amigos porque eu sou legal, tá? Mas eu vou contar uma historinha onde eu sou a amiga "na fila". E quando eu lembrei dessa história eu até me senti mal, porque eu era exatamente a pessoa que o cara lá do começo da história estava descrevendo.
A história começa logo no primeiro dia de aula na Faculdade Cásper Líbero, em 2003. Eu, Fernanda Carolina, logo reparei num menino alto e magrelo. Não era bonito. Não era feio. Não chamava a atenção de ninguém porque ele era com certeza uma das pessoas mais normais daquela sala de aula. Caio era seu nome.
Caio era aquela pessoa que toda sala de aula tem pelo menos uma: aquele ser que fica quieto na dele, entra mudo, sai calado, senta atrás ou na frente da sala (nesse caso, ele sentava atrás), muito pouca conversa, somente o necessário, nunca faz pergunta ou responde a alguma do professor. Alguns só lembram da existência desse ser na hora da chamada, quando o professor grita seu nome. Eles nunca vão participar da festa da formatura no final dos 4 anos da faculdade, então provavelmente essas pessoas acabam sendo esquecidas pela grande maioria depois da colação de grau, que, com certeza, esse ser não gostaria de participar, mas como ele vai ser obrigado...
Pelo amor de Deus, não me entendam mal. Ele não era anti-social, ele não era insuportável, ele não era sociopata (bom, pelo menos não parecia)... Ele só era... na dele? É, acho que a gente pode dizer isso. E como eu notei a presença desse ali na sala de aula? Eu também não sei. Nem Deus sabe. Mas a presença foi notada e eu fiz dele meu objetivo de amizade ali dentro.
Na faculdade eu tinha alguns grupinhos, cada trabalho em grupo era um stress, a gente ia descobrindo aos poucos com quem era bom fazer trabalho, com quem era mais briga que trabalho, ah, vocês sabem, adaptações que todo mundo passa na época de faculdade. Aos poucos, com a desculpa de trabalhos e tudo mais, eu ia me aproximando mais do cidadão em pauta. Ele era tímido, mas ele era legalzinho. E ele fazia os trabalhos sem reclamar e de uma maneira aceitável, então quanto mais oportunidades eu tinha de chamá-lo pra enturmar, eu chamava. Isso tudo no primeiro ano.
O segundo ano começou e eu não sei como, foi descoberto que Caio tinha habilidades em edição. Aaaahhhhh, meu bem, você não sabe o quanto eu usei isso ao meu favor. Falava pra galera dos meus grupos que a gente tinha que chamá-lo, porque ele era mega bom em editar e ninguém sabia editar e eu é que não ia perder meu tempo em editar. Como ninguém mais queria ter dor de cabeça com isso mesmo, eu sempre conseguia acoplar meu querido amiguinho nos trabalhos, principalmente nos de vídeo que precisavam de edição.
No final do segundo ano, eu já era amiguinha dele, até convidei ele pro meu aniversário e ele foi! Olha só essa amizade sem fim!
O terceiro ano começou, 2005. Eu passei por muuuuuitas mudanças nesse ano. Interior, exterior, tudo. A única coisa que não tinha mudado muito era meu interesse no tal mocinho. E o problema é que ele era uma pessoa que namorava. Direto. Tipo, no primeiro ano ele namorava uma e no segundo ano, ele já tava com outra. Essa primeira eu não cheguei a ter contato, agora essa segunda, senhor! Como ela me odiava! A ponto de fazer quase barraquinho na faculdade um dia. Ridícula. Quer dizer, mais ou menos, ela sabia que eu tava mega afim do namoradinho dela, isso até a tia da cantina sabia, mas sabe? Confiança, por favor? Eu tinha confiança. Não em mim, mas de que um dia esse namoro ia terminar e eu ia ser a amiga "primeira da fila", que ia estar ali do lado dele quando tudo desse errado com essa menina. E durante esse ano a gente passou MUITO tempo juntos. Ele vivia em casa depois das aulas, a gente assistia Lost juntos, ele ficava editando vídeo no meu computador e eu ficava ali só babando ovo, a gente comia Yakissoba do tiozinho da rua juntos... A nossa amizade tinha crescido o suficiente pra quando ele terminasse o relacionamento da vez, ele olhasse pra mim e percebesse que EU era a mulher certa pra ele. Meu plano ia dar muito certo. Então eu estava só esperando na coxia.
Mas uma coisa aconteceu em 2005 que meio que mudou os acontecimentos em 2006. Daniel. Lembrando que Daniel só apareceu no Natal de 2005, e fevereiro foi o mês que deu-se o nosso encontro, quando as aulas começaram depois do Carnaval, eu era outra pessoa, completamente confusa e apaixonada por Daniel. Mentira, não tava confusa e apaixonada por Daniel. Eu tava doente. Essa doença só veio a pior quando as coisas que eu esperava que fossem acontecer com Daniel foram por água abaixo.
2006 foi um ano que muita coisa aconteceu. Muita. Se eu for parar pra enumerar os acontecimentos desse ano, acho que tudo o que fiz depois que 2006 acabou não chega nem aos pés de tudo que aconteceu em 2006: Daniel, último ano da faculdade, Carnaval em Diamantina, formação do grupo de TCC (que tinha sido escolhido no ano anterior, então eu tava no grupo com Renato e claro, Caio), mudança de apartamento e colegas de apê, primeira vinda a NYC, decisão de fazer um curso aqui em NYC no ano seguinte... E depois que as coisas deram erradas com Daniel, eu me joguei num mundo completamente promíscuo (isso fica pra outro post, talvez) e quando percebi que estava me machucando mais do que me ajudando, comecei a fazer análise. Isso são só algumas coisas que aconteceram em 2006.
Dentro de mim, muita coisa tava acontecendo em muito pouco tempo, e durante tudo isso, o Caio tava sempre ali, mesmo porque a gente tava fazendo TCC junto, então tinha pesquisa, tinha pré-produção, tinha gravação, tinha começo de edição, tinha muita coisa acontecendo. Ele tinha começado a trabalhar, mas depois do trabalho era quase sagrado ele passar em casa toda noite e ficar lá até quando desse pra gente resolver essas coisas da faculdade. Esqueci de comentar que ele tinha terminado o namoro em algum momento antes do final do primeiro semestre.
No final do TCC, ou seja, no final do ano, faltava muito pouco pra edição do nosso piloto ficar pronto e a gente tinha pouco tempo. Ficou resolvido uma noite que a gente ia dormir, eu ia acordar no meio da noite, pesquisar umas imagens enquanto ele dormia e depois das imagens pesquisadas e salvas, ele acordaria e adicionaria elas na edição e eu voltava a dormir. Tá. Lá fomos nós dormir. Cada um no seu colchão no chão. Boa noite, Caio. Boa noite, Fernanda.
Quando a luz tinha apagado fazia muito pouco tempo, eu senti a mão dele pegar a minha. Tá. Até aí beleza, a gente vivia de mão dada, eu abraçava e beijava ele toda hora, eu era como eu sou com todo mundo, então dormir de mão dada não era um conceito muito estranho. Um pouco, mas não muito. Tá. Só que daí ele começou a acariciar a minha mão com o dedo dele. Aí já ficou estranho e diferente. E meu coração eu já sentia na garganta. Eu esperava que aquilo fosse terminar no que eu estava esperando há 4 anos, mas não era possível, era tudo bobagem, se pá ele já tava dormindo e tava sonhando com algo, então ele nem tava sabendo o que ele tava fazendo. Mas depois de muito tempo ele subiu esse carinho pro meu antebraço. Agora, no antebraço ele ficou muito pouco tempo, porque ele logo me puxou pelo braço pra deitar ao lado dele.
Péra.
Agora não era possível que ele estivesse dormindo! Eu puxei de volta, eu que não ia deitar no colchão dele! Ele que viesse deitar no meu, se ele estivesse querendo o que eu estava rezando pra que ele estivesse querendo. E ele veio. Quando ele veio, ele deitou do meu lado, os dois olhando pro teto. Ele disse: "Eu estraguei tudo". Eu: "Estragou o que?". "A nossa amizade. Eu não devia ter feito isso". "Feito o que? Você não fez nada". "Agora vai mudar tudo". "Por que? A gente não fez nada!". "Não tem como fingir que nada aconteceu". "Mas nada aconteceu, Caio! A gente tava de mão dada como já fizemos mil vezes. Então nada vai mudar". E daí a gente ficou parado por um tempo. Ele virou e me deu um abraço. "Caio, não se preocupa, nada vai mudar porque a gente não fez nada". Nisso ele quebrou o abraço. E no que ele quebrou o abraço, ele me beijou.
JURO! Eu tive 2 momentos Hollywoodianos na minha vida: o meu primeiro encontro com Daniel (que ainda está para ser contado) e esse momento aqui. A gente tava se beijando, mas ao mesmo tempo eu tava gritando de felicidade na minha cabeça. Eu não podia acreditar que o meu plano, depois de 4 anos, tinha dado certo! E ainda tinha saído melhor que o esperado! Não fui eu que tentei nada com ele! Ele que veio pra cima!
Depois de alguns vários minutos se beijando, a gente se separou. Ele encostou a cabeça no meu ombro e lançou "Tá vendo? Eu estraguei tudo". "Você não estragou nada. A gente fez o que a gente queria. Se você quiser a gente faz de conta que nada aconteceu". "Eu não queria que as coisas mudassem". "Caio, então vamos fingir que nada aconteceu. Volta a dormir e amanhã a gente conversa". Ele voltou pro seu colchão e eu fiquei quietinha no meu. Depois a gente voltou a falar algumas coisas bobas por mais alguns minutos (ele insistia demais nessa história de que não queria que as coisas mudassem e que ele tinha estragado tudo) e depois de um tempinho ele voltou a me puxar, só que dessa vez eu fui pro colchão dele. A gente só ficou abraçado de conchinha por um tempo. Ele devia de tá pensando no que ele devia fazer. Acho que ele chegou a conclusão de que já tinha estragado tudo mesmo, então foda-se, me virou de frente pra ele e me beijou de novo. Dessa vez com muito mais intensidade. Apertou o botão do foda-se bonito dessa vez.
Tá. Nada aconteceu depois desse beijo, cada um voltou pro seu colchão e ele finalmente dormiu. Quando eu percebi que ele tinha dormido, eu fui correndo pra sala e peguei meu celular pra mandar mensagem pra Flávia e pra Taís, que moravam comigo, pra contar o que tinha acontecido, porque eu precisava contar pra alguém e elas acompanharam a história de perto. Juro, eu parecia uma menina tonta quando a Flávia me ligou preu explicar direito o que tinha acontecido. Eu era a pessoa mais feliz do mundo!
A gente ficou mais algumas vezes. E ele entrou pra lista de meninos que tenho no meu iPhone. Mas é lógico que tudo tinha mudado. E tudo piorou quando ele disse que ele ia voltar pra ex dele. Eu já tinha melhorado um pouco nessa época, não estava mais tão doente quanto na época do Daniel, mas mesmo assim demorou um tempo preu perdoar o que tinha acontecido. Pra mim ele não tava dando chance da gente tentar ter algo. Ele preferia voltar pra ex dele porque pra ele era mais fácil.
Aos poucos eu fui percebendo que na verdade a decisão dele não tinha muito a ver comigo. Por mais que a gente fosse muito amigo, a gente nunca ia dar certo dessa maneira. Não sei exatamente porque eu acho que a gente não daria certo, mas é uma coisa que você sente, não explica. Ele tentou explicar, chegou a dizer que "a gente é de mundos diferentes" (sim, ele lançou essa frase exatamente como está escrita. Tá vendo? Até ele quis ter seu momento Hollywoodiano), e eu acho que essa frase não é de toda errada pra explicar um dos porques. Mas não era só por isso, claro.
Agora eu tenho que admitir que esse foi um dos "relacionamentos" que eu mais gostei de ter. Mesmo eu não tendo ficado com ele por muito tempo, mas acho que esse nem era o objetivo. Por mais que na época eu tenha ficado triste porque ele escolheu a ex a mim, na verdade, analisando bem agora, eu acho que eu não fiquei triste por isso. Fiquei triste pelo fim do jogo. Pra mim, o que eu gostava nisso tudo era o jogo de sedução. Tanto do meu lado quanto do dele. Pra mim, a gente sempre esteve jogando, cada um com suas armas, tentando enfraquecer o outro e ver quem resistia primeiro. Mesmo quando a gente já tinha se beijado, toda vez que a gente se via, a gente tentava ver quem enfraquecia primeiro e ia pra cima. E isso era tão gostoso. Era tão diferente de qualquer outra coisa que eu tive. Aquele friozinho na barriga era constante toda vez que a gente se via. E era isso que eu valorizava no que a gente tinha.
Foi bom enquanto durou. Muito bom enquanto durou. Que saudades gostosa dessa época!